Nos primórdio do funk mais precisamente na década de 80, a região metropolitana do Rio de Janeiro reunia milhares de pessoas para apreciar este gênero musical:
"Em todos os fins de semana, no Grande Rio, são realizados cerca de 700 bailes onde se ouve música funk. Segundo os próprios organizadores, um baile com 500 pessoas é considerado um fracasso. Cada uma dessas festas atrai, também em média, 1000 dançarinos. Pelo menos uma centena de bailes reúne um público superior a 2000 pessoas. Alguns deles costumam ter 6000 a 10000 dançarinos. Fazendo as contas, por baixo, é possível afirmar que 1 milhão de jovens cariocas frequentam esses bailes todos os sábados e domingos."¹
O gênero que começou a contagiar os moradores cariocas, apesar de sempre carregar um estereótipo de movimento suburbano, como cita Vianna:
"O baile funk é, principalmente, uma atividade suburbana. Existem alguns bailes realizados na Zona Sul, geralmente localizados perto das favelas, e frequentados por uma juventude proveniente das camadas de baixa renda, em grande parte negra (exatamente como nos bailes suburbanos), e nunca de classe média. Os bailes da Zona Sul não se compraram, em tamanho e empolgação, com os bailes dos subúrbios"¹
O Canecão, principal casa de show do Rio de Janeiro, localizado no bairro do Botafogo, zona Sul da cidade, foi onde ocorreu a primeira apresentação de funk. Duas das figuras mais marcantes são o discotecário Ademir Lemos, que até então só trabalhava em boates, e o animador e locutor de rádio Big Boy. Este produzia e apresentava um programa diário (menos aos domingos) na rádio Mundial no final das tardes, horário radiofônico considerado mais popular da época. Os bailes apresentados por eles, que ocorriam aos domingos, chegavam a atrair cerca de cinco mil dançarinos. Ademir tocava rock e pop mas, preferencialmente, James Brown, Wilson Pickett e Koll and the Gang. Tempo depois, a direção da casa de shows preferiu realizar concertos somente de nomes da MPB (Música Popular Brasileira), o que acarretou a transferência dos seus equipamentos para os clubes de subúrbio.
Mas, nem só a música era o destaque deste começo do funk no Brasil. Os bailes dos anos 90 eram marcados também pelo forte ambiente violento devido aos conflitos de gangues residentes dos morros da cidade do Rio de Janeiro. Apesar do número ínfimo destes indivíduos, muitos conseguiam desestruturar festas. De 1992 até anos que antecederam o fim do século, os conflitos entre as facções eram constantes, o que fez a prefeitura e o governo estadual do Rio de Janeiro proibir os bailes devido à violência. Algumas passeatas foram feitas reivindicando a posição e se mostrando a favor do funk. Em outubro deste mesmo ano, a briga das gangues ocorreu na praia do bairro de Ipanema. Houve pânico dos banhistas, moradores e turistas. Esse arrastão, de acordo com Herschamann (1997), foi o estopim para que as pessoas fizessem a ligação morro-funk-violência, mesmo não sendo relação direta entre ambiente residencial, música e o caos
"tornaram-se uma espécie de marco no imaginário coletivo da história recente do funk e da vida social do Rio de Janeiro fortemente identificada com conflitos urbanos onipresentes. A partir desse momento, tais fenômenos das periferias e favelas das grandes cidades, quase desconhecidos da classe média, ganharam inusitado destaque no cenário midiático"²
Mesmo com uma repercussão nacional sobre o caso e criado um preconceito real sobre o gênero, mesmo não tendo uma relação direta com o ocorrido, em julho de 1993 o DJ Marlboro (ver a seguir) voltou a inserir o funk na zona Sul, com uma matinê aos sábados, que despontou entre a população da classe alta. Em 1995/96, a aproximação entre as classes sociais já era nítida. Os jovens ricos, cansados de frequentar as mesmas danceterias, resolvem assistir aos bailes funks cariocas dentro das próprias comunidades.
Capa do disco do Dj Malboro - Gravadora Som livre
Mas, não foram apenas os adolescentes ricos que foram conquistados pelo movimento. A primeira grande notoriedade positiva dos funkeiros ocorreu quando, em junho de 1994, a apresentadora Xuxa inaugurou o quadro Xuxa Park Hits, em seu programa Xuxa Park, na TV Globo, com a participação do DJ Marlboro(criador do conceito de funk carioca, utilizando o miami bass, mas com letras em português). O quadro deu certo e virou permanente. Com o intuito de fazer o movimento se desenvolver e de se fortalecer em todo o Brasil, além de mostrar as novas faces e os novatos que criavam funk, ela levava dois a três artistas em todo o programa para divulgar o gênero na televisão. Xuxa, por consequência, virou a embaixatriz do funk carioca. Ao lançar o disco Funk Brasil 4, Marlboro vendeu 120 mil cópias em quatro dias, além de ganhar uma coluna no jornal carioca O Dia chamada “Galera”, para falar somente sobre o assunto.
O funk carioca acaba inserido na vida dos jovens das diversas classes sociais por suas características que envolvem alegria, sensualidade e envolvimento entre homens e mulheres.
Em 1995, o funk entrou realmente no mundo fonográfico, sendo reconhecido pelas gravadoras. Comercia lmente, eram as coletâneas que faziam sucesso, como a “Demorou mas abalou – funk total”, lançada pela Sony Music e que vendeu 250 mil cópias. Outra grande gravadora que ingressou na produção e na vendagem de CDs de funk carioca foi a Som Livre.Paralelamente, o que atrapalhou o andamento a progressão musical foi a violência e brigas que ocorriam nos bailes. O então prefeito carioca César Maia chegou a autorizar o cancelamento de alguns bailes. Estas brigas foram mais intensificadas entre os anos de 1995 e 1999.
Este ódio e transgressão coletiva ocorriam, na maioria das vezes, pela presença marcante das gangues de traficantes. Não à toa, nesta época, em uma entrevista divulgada com o traficante Elias Maluco, ele admitia que patrocinava os bailes funks para que os moradores das favelas consumissem as drogas dentro do local. Rômulo Costa15 também revelo u que os traficantes usavam as associações de moradores das favelas para contratar os bailes. Em julho de 1997, surgiu uma fita de vídeo (a Rio Funk Proibido) na qual havia a música Cidade Maravilhosa16. Ela era apresentada em ritmo de funk, com dançarinas tirando a roupa no palco de um baile, enquanto jovens entre 15 e 20 anos tentavam tocá- las. Neste mesmo vídeo há imagens de meninos de 10 anos ao lado das supostas dançarinas.
Entre 1999 e 2000, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou projeto de lei que regulamentava o funcionamento dos bailes, o que faria a necessidade da instalação de detectores de metais na entrada, a obrigatoriedade de autorização prévia e presença do começo ao final do evento pela policia, além da proibição da execução de músicas que fizessem apologia ao crime. Neste mesmo ano de 2000, as gravadoras praticamente fecharam as portas para o funk carioca, que estava em franco declínio.
O funk carioca atualmente
Um dos motivos que levou o funk carioca às paradas de sucesso é o fácil modo de sua produção. Em qualquer estúdio com equipamentos mais antigos é possível produzir um disco, já que é necessário um sampler (Samplear é o ato de retirar trechos de uma música e criar uma nova, utilizando um aparelho chamado de sampler), batidas e a utilização de voz.
Durante os anos 1990, a equipe de som que mais ganhou mais destaque e ganhou mercado foi a Furacão 2000, de Rômulo Costa, atuante no mercado musical desde a década de 70. Convertido à Igreja Universal do Reino de Deus por sua namorada Verônica, nos primeiros anos da década de 1990, batalhou e utilizou-se da fama do funk para que ela se tornasse apresentadora de TV. Criou o programa Furacão 2000, transmitido aos sábados à tarde, em rede nacional. Em 2004, fez uma campanha visando o crescimento do funk carioca
para eleger sua então esposa ao cargo de vereadora, com o intuito de defender o movimento. O casal ganhou o apelido de Mãe Loira e Pai Moreno, por incentivarem a cultura funk na evolução de um movimento popular.
Baile Furacão 2000
Porém, a pressão da polícia sobre os traficantes, as reportagens negativas sobre o funk carioca, o envolvimento com o tráfico de drogas e a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro em 1999, suprimiram diversos bailes, principalmente os próximos às áreas urbanas mais nobres, pois o barulho e o som atingiam potência acima do permitido (normalmente 85 decibéis por lei). Muitos registravam casos de violência e briga. Esta nova fase do ritmo é descrita como new funk.
Junto à cantora Tati Quebra Barraco, nesta última década, outros MCs se especializaram em criar letras eróticas e de duplo sentido, enaltecendo os atos sexuais. Apesar das letras e das músicas da cantora apresentarem resistência à dominação masculina e esbravejando o feminismo, a quantidade de palavras de baixo calão elimina bastante desta iniciativa.
Em maio de 2008 foi sancionada uma lei incentivada e dirigida pelo ex-deputado Álvaro Lins (preso pela Polícia Federal sob a acusação de corrupção e lavagem de dinheiro) em que estabelecia que os bailes funks dependeriam de autorização prévia da Secretaria de Estado de Segurança para ocorrerem. Entretanto, uma das principais vitórias dos ativistas que buscam autenticidade ao funk carioca como movimento social foi divulgada em matéria publicada no dia 9 de janeiro de 2009, no jornal O Estado de S. Paulo, caderno Metrópole, página C8, com o título “Projetos de lei propõe funk como expressão cultural popular”. Esta traz que dois projetos de lei em tramitação na Câmara dos Deputados e na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, tratam da preservação do funk como uma manifestação cultural popular.
O funk carioca, como uma manifestação cultural de massa do Brasil, tem relacionamento direto com estilos de vida, comportamentos e experiências da juventude , principalmente da que vive nos subúrbios.
Os bailes e o funk carioca de um modo geral funcionam como um ponto de intersecção entre a auto-afirmação daqueles que trabalham e necessitam deste meio para sobrevivência de um modo moralmente honesto, e daqueles que usam dos visitantes e das pessoas que vivem na comunidade para venda de drogas, abusos com relação à sexualidade etc.
Referências:
Texto: Leonardo Zanon: "Mídia e discurso: Um estudo do discurso da veja sobre o funk carioca"(2009)
1 - Hermano Vianna - "O Mundo Funk Carioca" (1988)
2 - Micael Herschmann - "Abalando os anos 90 – funk e Hip Hop. Globalização, violência e estilo"(1997)


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